Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 571 | Agosto de 2026 | Campo Mourão - Paraná

ENTREVISTA

entrevista


Márcio Lopes de Freitas

Presidente do Conselho de Administração do Sistema OCB

"O futuro do cooperativismo depende da nossa capacidade de cultivar, todos os dias, a cultura, os valores e a sua essência."

A cultura cooperativista está no centro das discussões sobre o futuro do movimento no Brasil. Na Semana Nacional do Cooperativismo 2026, o tema ganhou destaque a partir da necessidade de fortalecer princípios, valores e a participação dos cooperados, sem deixar de lado a profissionalização, a inovação e a competitividade das organizações. Presidente do Conselho de Administração do Sistema OCB, Márcio Lopes de Freitas defende que o crescimento econômico das cooperativas deve caminhar junto com a preservação de sua essência. Em entrevista à Revista Coamo, ele destaca que a cultura cooperativista precisa ser cultivada continuamente, transformando princípios e valores em práticas que mantenham o cooperado no centro das decisões e do desenvolvimento do movimento.

Revista Coamo: Como foi construído o tema da Semana Nacional do Cooperativismo 2026 com foco na cultura cooperativista?

Márcio Lopes de Freitas: Esse momento é construído com a participação de cada unidade. Buscamos identificar o que está sendo necessário, o que as pessoas estão percebendo na base, e as equipes trazem sugestões. A partir disso, construímos um momento em que concentramos esforços e energia em torno de um tema estratégico e importante para o cooperativismo. Por isso, agradeço aos presidentes e a todas as equipes das unidades estaduais, que construíram essa semana junto conosco.

RC: Os números deste movimento mostram a dimensão que cresceu e alcançou todo o Brasil?

Freitas: O nosso cooperativismo já reúne cerca de 29 milhões de brasileiros cooperados. Se considerarmos que cada cooperado possui, em média, familiares diretamente ligados a ele, percebemos que mais da metade da população brasileira pode ter algum vínculo com o cooperativismo. Além disso, as cooperativas geram mais de 600 mil empregos diretos. É um movimento de enorme valor social e econômico.

RC: Qual é a perspectiva econômica para o cooperativismo?

Freitas: Estamos nos aproximando de uma movimentação econômica de R$ 900 bilhões. A nossa meta é chegar próximo de R$ 1 trilhão. Isso mostra a força econômica que o cooperativismo alcançou e a responsabilidade que temos para continuar avançando.

RC: Ao falar de futuro, o senhor também destaca a importância do legado deixado pelos pioneiros. Por quê?

Freitas: Porque esse movimento tem muita história, dedicação e um legado construído por muitas pessoas. Quando pensei nesse legado e assisti ao filme de abertura, lembrei do trabalho do meu pai e da amizade que ele tinha com o pai do Roberto. Meu pai sempre dizia algo que tem muita relação com o tema desta semana: o cooperativismo nasce muito melhor de uma muda do que de uma semente.

RC: O que essa frase significa?

Freitas: Significa que o cooperativismo precisa nascer de uma origem, de um sentimento e de uma prática. Apenas no campo das ideias ou dos conceitos ele não se sustenta. Para ter efetividade e sustentabilidade, precisa ser colocado em prática. É necessário transformar os princípios e valores em ações concretas.

RC: O senhor percebe um certo "distanciamento" entre as cooperativas e os princípios do cooperativismo?

Freitas: Tenho percebido, conversando com líderes, presidentes de cooperativas e pessoas que estão no dia a dia do movimento, que houve um certo distanciamento de algumas bases do conceito cooperativista, da sua essência, dos seus princípios e valores. Um dos pontos fundamentais é entender que a cooperativa deve ser realmente uma referência para o cooperado. A cooperativa é uma criação do cooperado. E a criatura não pode ser mais importante que o criador.

Márcio Lopes de Freitas discursa na Semana de Competitividade 2026

Natural de Patrocínio Paulista (SP), Márcio Lopes de Freitas é agropecuarista, produtor de café e cooperativista. Graduado em Administração pela Universidade de Brasília (UnB), iniciou sua atuação no movimento cooperativista em 1994. Entre 1997 e 2001, presidiu a Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp). Em 2001, assumiu a presidência da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), função exercida até 2026. Também presidiu o Sescoop e, desde 2005, a Confederação Nacional das Cooperativas (CNCoop). Com a nova estrutura de governança do Sistema OCB, passou a presidir o Conselho de Administração, com atuação estratégica, institucional e política. Também participa de organismos internacionais do cooperativismo.


"O cooperativismo precisa nascer de uma origem, de um sentimento e de uma prática. Apenas no campo das ideias ou dos conceitos ele não se sustenta."

RC: Neste contexto, a profissionalização das cooperativas é relevante?

Freitas: É fundamental. A profissionalização é fantástica e necessária. Precisamos acompanhar a inovação, ter profissionais competentes, desenvolver negócios maiores e mais fortes e buscar competitividade. Mas não podemos permitir que o crescimento do negócio desequilibre a relação com os conceitos, princípios e valores do cooperativismo. Essa é a nossa essência e a nossa principal diferença.

RC: Foi justamente essa preocupação que levou a OCB a escolher o tema "Cultura Cooperativista"?

Freitas: Sim, esse tema veio muito forte da base. Tivemos no Congresso Nacional milhares de presidentes de cooperativas de todo o Brasil e, quando discutimos os rumos e as estratégias do movimento, a cultura apareceu com muita força. Falou-se sobre a falta de cultura, a perda de cultura e o distanciamento da base. Por isso, amadurecemos a ideia de trabalhar a cultura cooperativista como uma prioridade.

RC: Como essa cultura deve ser trabalhada?

Freitas: A cultura cooperativista precisa ser cultivada todos os dias. Ela precisa ser trabalhada, alimentada e fortalecida permanentemente. Não estou dizendo que devemos deixar de lado a profissionalização, a inovação, o foco no negócio ou a segmentação das funções. Pelo contrário. Tudo isso é necessário. Mas precisamos resgatar também o coração, a paixão de ser cooperativista.

Homenagem aos Pioneiros do Cooperativismo Brasileiro, na Semana de Competitividade 2026, promovida pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB)

Homenagem aos Pioneiros do Cooperativismo Brasileiro, no evento "Semana de Competitividade 2026" promovido pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB)

RC: Qual o impacto desta Semana de Competitividade para melhoria dos resultados na cultura cooperativista?

Freitas: Este evento com cerca de mil cooperativistas de todo o país é um "motor de arranque" para um processo que será desenvolvido ao longo de todo este ano e no início do próximo. Vamos trabalhar a cultura cooperativista e desenvolver mecanismos e ferramentas para chegarmos cada vez mais perto do cooperado.

RC: Entre essas ações está o fortalecimento dos Conselhos de Administração?

Freitas: Sim, uma das iniciativas da OCB é fortalecer os nossos Conselhos de Administração. Já lançamos a Jornada dos Conselheiros, que prevê capacitação e treinamento para que os conselheiros possam exercer plenamente seu papel estratégico, como representantes legítimos dos cooperados.

RC: Como conciliar o fortalecimento dos conselhos com a profissionalização das cooperativas?

Freitas: As duas coisas caminham juntas. Precisamos de uma estrutura executiva profissional, com pessoas qualificadas, ágeis e competentes para realizar e construir. Mas também precisamos de uma base estratégica capaz de enxergar o cooperativismo a partir da visão do cooperado. O conselho precisa pensar no futuro, enxergar o futuro e ajudar a determinar os rumos da organização. Os executivos cumprem essa função com energia e dinâmica, mas sempre dentro de uma orientação estratégica que preserve a essência cooperativista.

RC: Por que essa divisão de papéis é tão importante?

Freitas: Porque, se não tivermos essa base estratégica, corremos o risco de entregar o nosso próprio modelo. Queremos um cooperativismo cada vez mais competente e competitivo, mas, acima de tudo, queremos um cooperativismo com essência. Nossa diferença não está apenas em sermos uma grande empresa ou um grande agente econômico. Nossa diferença é sermos cooperativos.

"Queremos um cooperativismo cada vez mais competente e competitivo, mas, acima de tudo, queremos um cooperativismo com essência."

RC: Então o objetivo é mudar o cooperativismo ou resgatar as origens?

Freitas: Não estou propondo mudanças radicais. Estou falando de resgate, pois precisamos resgatar o verdadeiro papel dos Conselhos de Administração, fortalecer a participação dos cooperados e recuperar a essência do movimento. Queremos avançar, inovar e sermos competitivos, mas sem perder aquilo que nos torna diferentes.

RC: Qual é a importância de reconhecer os pioneiros do cooperativismo em um grande evento e a nível nacional?

Freitas: O cooperativismo que temos foi construído a partir das ideias e do trabalho de muitos pioneiros. São pessoas que ajudaram a construir os alicerces desse movimento que hoje está presente em todo o Brasil e em praticamente todas as atividades econômicas. Entre os 11 pioneiros homenageados na Semana de Competitividade estão lendas como Roberto Rodrigues e José Aroldo Gallassini. Reconhecer essas pessoas é reconhecer simbolicamente a nossa própria história e, ao mesmo tempo, compreender que esse legado é importante para construirmos o futuro.

RC: Qual mensagem do senhor para os cooperativistas da Coamo e da Credicoamo?

Freitas: Precisamos olhar para o futuro, mas sem esquecer nossas origens. Podemos ter profissionalização, inovação, escala, competitividade e grandes negócios. Tudo isso é importante. Mas não podemos permitir que o negócio se torne mais importante que o cooperado e que os princípios que deram origem ao movimento. O futuro do cooperativismo depende da nossa capacidade de cultivar, todos os dias, a cultura, os valores e a essência cooperativista.

É permitida a reprodução de matérias, desde que citada a fonte. Os artigos assinados ou citados não exprimem, necessariamente, a opinião do Jornal Coamo.